O dólar americano conseguiu se recuperar durante a primeira metade da sessão de negociação de hoje, com o USDX subindo da mínima registrada na terça-feira, a mais fraca desde março de 2022 em 95,52, para o nível atual próximo de 96,20.
Ainda assim, o dólar segue sob pressão, e o índice do dólar permanece em um mercado baixista de longo prazo, sendo negociado abaixo da zona estratégica de suporte em 96,80 (EMA 200 mensal). A dinâmica atual sugere que essa recuperação tem caráter corretivo, enquanto a tendência predominante continua sendo de baixa.
Hoje, o foco do mercado está na primeira reunião do Fed do ano — a decisão sobre a política monetária será divulgada às 19:00 GMT. Abaixo, analisamos as perspectivas para o dólar — suas fraquezas e possíveis apoios.
Fatores negativos
- Fraquezas estruturais. Economistas apontam pressões estruturais de longo prazo sobre o dólar, como a crescente desconfiança em relação à política comercial e externa dos EUA, a politização do Fed e a deterioração da disciplina fiscal. Esses fatores se sobrepõem a um cenário cíclico mais neutro.
- Expectativas de flexibilização da Fed. Os mercados estão praticamente certos (97% de probabilidade, segundo a ferramenta CME FedWatch) de que a taxa de juros ficará na faixa de 3,50% a 3,75%, mas já precificam um corte em março (15% de chance) e dois cortes adicionais durante 2026. Essas expectativas removem uma fonte importante de apoio ao dólar.

- Incerteza política. As declarações do presidente Trump sobre a nomeação em breve de um novo presidente do Fed e suas previsões de cortes nas taxas sob um novo presidente aumentam os temores sobre a independência do Fed, o que é claramente negativo para a moeda. O debate no mercado sobre uma possível substituição do presidente do Fed, os comentários públicos de Trump sobre a redução das taxas e sua postura benigna em relação a um dólar mais fraco como ferramenta para apoiar as exportações e a indústria dos EUA ("O dólar está bem", disse ele recentemente) aumentam a incerteza, elevam a volatilidade e pesam sobre a demanda pelo dólar em relação às principais moedas.
Fatores favoráveis
- Correção técnica de curto prazo. A recuperação intradiária (pela manhã) parece uma "correção por rumores", quando alguns especuladores fecham posições vendidas antes de um evento importante.
- Possibilidade de uma surpresa hawkish. Se o presidente Powell enfatizar os riscos inflacionários persistentes e a força do mercado de trabalho na coletiva de imprensa, o dólar poderá receber um impulso temporário.
Embora o dólar pareça fundamentalmente subvalorizado em relação aos diferenciais de taxas, uma série de fatores de longo prazo — nomeadamente a deterioração da credibilidade fiscal dos EUA, o aumento da dívida pública, a diminuição da confiança no comércio e na política externa e os receios quanto à independência da Reserva Federal — continuam a exercer uma pressão descendente que compensa os fatores macroeconômicos positivos de curto prazo e mantém o dólar numa tendência de baixa.
Quadro técnico do USDX
Apesar da recuperação de hoje, o dólar continua vulnerável.
Resistência principal: 96,80. É necessário retornar e manter-se acima desse nível para neutralizar o risco imediato de uma queda mais acentuada.
Suporte imediato: 95,52 (mínima de ontem). Uma quebra abaixo desse nível abriria caminho para mínimas mais acentuadas, testando potencialmente 95,00 – 94,50 – 94,00.
Perspectivas de médio prazo
O equilíbrio dos riscos favorece uma maior desvalorização do dólar. Fatores estruturais e expectativas de flexibilização criam uma forte tendência de queda. Qualquer fortalecimento provavelmente será temporário e corretivo, a menos que o Fed faça uma mudança decisiva para uma postura mais hawkish — o que parece improvável neste momento.
Conclusão
O dólar americano atravessa uma fase de transição desafiadora. Apesar de repiques pontuais, a tendência geral permanece de baixa, e o mercado está cada vez mais atento às perspectivas de afrouxamento monetário pelo Fed e aos riscos políticos. A dinâmica de curto prazo dependerá do tom adotado por Jerome Powell.
Além da reunião, porém, o ambiente segue complexo: a pressão política sobre o Fed, o crescimento do déficit fiscal e as expectativas de cortes de juros continuarão a moldar um cenário baixista.
Os investidores devem se preparar para volatilidade elevada em torno da decisão do Fed, da coletiva de imprensa e do pregão seguinte. As perspectivas para o dólar só ficarão mais claras após o resultado da reunião e a definição do próximo presidente do Fed. Esses fatores definirão, em última instância, a política monetária para os próximos anos. Por ora, a tendência confirma a fraqueza do dólar, e qualquer recuperação deve ser encarada como uma oportunidade de venda.